Não Temas o Mal

Quando sentei-me e comecei a escrever a introdução para a versão em Português da minha coleção de discursos “Não Temerei Mal Algum,” vi-me confrontado, de imediato, com uma vasta panóplia de questões relacionadas com o complexo processo histórico pelo qual diversos povos, ao redor o mundo, acabaram por falar naquela bela língua. As vozes lembravam-me da escravidão, da extração e do consumo, e de outras ações cruéis. Mas, não demorou muito para que percebesse que os Estados Unidos estão emaranhados nas mesmas redes globais, há tanto tempo, que o meu próprio país é o produto desse sistema de comércio e finanças globais, da extração e da escravatura, que remonta às primeiras incursões de descoberta lançadas a partir de Lisboa no século XV.

Grande parte da minha campanha presidencial é sobre a criação de uma abordagem ecologicamente saudável para a economia e comércio global, uma que se afasta do petróleo e carvão imediatamente, e que incide sobre o indivíduo, a comunidade. Queremos adotar uma abordagem justa para o comércio e as finanças, que os tire das mãos dos super-ricos e que crie uma economia democrática para todos os Americanos, para todos os cidadãos da Terra.

Eu perguntei-me a mim mesmo, com quem estava a falar quando escrevi esta introdução. Eu, estou a falar com as pessoas honradas de Portugal, uma terra antiga de honra e integridade, de grandes conquistas culturais, como o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém no rio Tejo?

Ou, estou a falar com os diversos povos que vivem com a natureza por todo o Brasil, pessoas corajosas que servem como guardiões da maioria dos rios preciosos e florestas fabulosas da Terra e como protetores de tradições tribais antigas que se estendem até a aurora da Humanidade.

Ou, estou a dirigir-me a falantes de Português, muitas vezes como segunda língua, que habitam as rotas de comércio de especiarias, em torno de África, em torno da Índia, passando pelas ilhas do Sudoeste Asiático e seguindo para Macau, na China?

Essa bela língua que perdura em Angola e em Moçambique, nas ilhas da Ilha de Orango, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau.

Que a linguagem, e a arquitetura e alimentos, são os restos de um vasto império comercial, que começou com especiarias e jóias, e se estendeu à escravidão e à exploração dos recursos naturais.

A ganância e a crueldade do processo, e a produtividade cultural e a originalidade artística, de que o processo histórico não são exclusivamente Português. Esse comportamento é o melhor e o pior do Homem. Todos nós somos capazes disso.

Nós, Americanos, também temos uma tradição trágica e estamos profundamente envolvidos em várias guerras nos dias de hoje, visíveis e invisíveis, guerras de um império que perdeu a sua direção e está a caminhar para o colapso institucional.

Assim, como os Portugueses lutaram contra os Holandeses, os Espanhóis e os Ingleses numa série de guerras secretas e obscuras, também os Estados Unidos estão agora envolvidos em inúmeras batalhas por dinheiro e recursos – batalhas muitas vezes obscuras e secretas, mas certamente batalhas que nós estamos a perder.

Não tinha pensado muito no Império Português, desde que estudei a “História Mundial” no ensino secundário. No entanto, quanto mais fundo eu procurava, mais familiares me pareciam os padrões.

O império de extração, de consumo, de mercenários militares e de diferentes formas de escravidão, deixou para trás uma língua comum e alguns pressupostos culturais comuns que podem ser rastreados de volta a Portugal. A cultura é o padrão esculpido na pedra da experiência humana que perdura depois do império ter sido destruído. A língua é a forma deixada na lama, como um fóssil, muito depois do corpo carnal do animal ter apodrecido. Estes vestígios são quem nós somos. É verdade para quem fala Português, mas ainda mais para quem, como eu, fala Inglês. Nós, tu e eu, somos os descendentes, a progenitura cultural, dum dos sistemas coloniais mais brutais da história.

Isto é quem nós somos.

Mas o processo não para por aí. Não. Agora, a questão é, o que vamos fazer neste momento? Como vamos transformar a mistura de bem e mal que nos foi deixada pelos nossos antepassados?

Como podemos usar as universalidades da linguagem, da filosofia e dos hábitos, para unir globalmente as pessoas por uma causa positiva, evitando cair nos hábitos de extração e exploração?

Podemos encontrar na rede global que se estendia desde Lisboa a Angola, de Cabo Verde a Maputo, e de Timor a Macau, algum potencial que vai além da cultura perigosa de extração, distribuição, consumo e exploração?

Essa é a questão para ti. Mas, também é a questão essencial para mim, como também para nós, Americanos. E a hora já vai avançada.

Amigos e simpatizantes comentaram, desde o início desta campanha “Não Temas o Mal” para Presidente dos Estados Unidos, que mais parece uma campanha para Presidente da Terra do que para os Estados Unidos.

Claro, essa não era a minha intenção. Eu não acredito que uma governação global possa desempenhar um papel positivo, desde que aderimos aos princípios da extração, lucro, crescimento e consumos – combinado com os gastos militares.

Nos dias de hoje, os Estados Unidos certamente são um império. Tão imperial na sua extensão excessiva que, se o chamarmos de “império”, vamos ofender a sensibilidade dos seus políticos e professores.

É como dizer a uma pessoa que bebe em excesso que ele é um alcoólico. Provavelmente, a sua resposta vai ser de que ele pode parar de beber quando quiser.

É absolutamente correto que a campanha visa introduzir um novo paradigma para toda a Terra, não apenas para os Estados Unidos, nem mesmo principalmente para os Estados Unidos. Se os cidadãos da Terra mudarem de direção, os Estados Unidos vão ser atraídos para essa mudança.

Temo que os Estados Unidos não sejam capazes de realizar essa transformação interna neste momento histórico.

O projeto de descolonização de Portugal pode ser extremamente útil para os Estados Unidos aprenderem, já que eles passam por um processo semelhante. Esses países tão intimamente ligados aos Estados Unidos, sejam o Japão e Israel, Austrália e Índia, Coreia e Singapura, devem se reinventar, devem recuperar a independência intelectual e cultural, como parte de um processo saudável pelo qual os Estados Unidos se tornam novamente uma república de acordo com a sua constituição, e deixam para trás as guerras intermináveis ​​de expansão imperialista para as quais foram arrastados, muitas vezes sem o consentimento dos seus cidadãos.

Espero que todos vocês, que compartilham a bela língua do Português, se juntem a nós neste projeto, nesta luta pela liberdade, nesta construção de um novo templo à liberdade e à verdad